A Obsessão pela Perfeição

"Vivemos [...] num estado estranho de preparação permanente. [...] Esperamos pela versão mais competente, mais estável, mais segura de nós próprios para avançar [...]."

Tempo de leitura: 6 minutos

Há uma pergunta que fazemos cada vez menos: “Estou feliz?” Em contrapartida, fazemos outra com uma frequência quase doentia: “Estou à altura?” Esta diferença, aparentemente simples, diz muito sobre a forma como passámos a viver. A felicidade tornou-se uma espécie de efeito secundário da performance, como se só pudéssemos senti-la depois de cumprir um conjunto de exigências cada vez mais vasto e menos claro.

Vivemos numa época em que já não basta viver. Tornou-se quase obrigatório documentar a vida, como se um momento só ganhasse legitimidade depois de ser mostrado. Já não basta trabalhar, é preciso ter uma carreira que inspire. Já não basta amar, é preciso que o amor resista à comparação constante com a vida aparentemente perfeita dos outros. E até o descanso deixou de ser apenas descanso, porque passou a precisar de justificações e resultados, como se parar fosse sempre suspeito.

Esta transformação não aconteceu de forma abrupta. Foi-se instalando lentamente, através de uma ideia aparentemente inofensiva: podemos sempre melhorar. O problema começa quando essa lógica deixa de ser um incentivo e passa a ser uma obrigação permanente. A partir desse momento, a vida deixa de ser vivida no presente e passa a ser avaliada como um projeto que nunca está concluído.

As redes sociais não criaram esta pressão, mas amplificaram-na de forma decisiva. Ao exporem apenas fragmentos escolhidos da vida dos outros, criam a ilusão de que existe uma normalidade feita de sucesso contínuo, felicidade constante e equilíbrio perfeito. O que raramente se vê são as dúvidas, os fracassos ou os momentos de cansaço que fazem parte de qualquer vida. Assim, a comparação torna-se inevitável e injusta, porque coloca lado a lado a totalidade da nossa experiência e a versão editada da experiência alheia.

É neste contexto que a ideia de perfeição ganha força. Não como um objetivo consciente, mas como uma exigência silenciosa. Começamos a medir o nosso valor pela capacidade de corresponder a esse padrão difuso e, muitas vezes, inatingível. E o resultado é um estado permanente de insatisfação, mesmo quando, objetivamente, há motivos para reconhecimento ou tranquilidade.

Confundimos excelência com perfeição frequentemente. A excelência implica esforço, crescimento e aceitação do erro como parte do processo. A perfeição, pelo contrário, não tolera falhas e transforma qualquer desvio num sinal de insuficiência. Enquanto a excelência permite viver com alguma leveza, a perfeição introduz uma forma subtil de ansiedade que acompanha quase todas as decisões.

Talvez seja por isso que sentimos um cansaço que não conseguimos explicar totalmente. Não se trata apenas de excesso de trabalho ou de falta de tempo, mas da sensação constante de estarmos aquém de uma versão ideal de nós próprios. Uma versão que muda sempre que é alcançada, o que torna esse esforço interminável.

Vivemos, por isso, num estado estranho de preparação permanente. Como se a vida estivesse sempre um passo atrás daquilo que queremos ser. Esperamos pela versão mais competente, mais estável, mais segura de nós próprios para avançar, como se a existência exigisse primeiro uma autorização interior que nunca chega totalmente. E, nesse adiamento constante, o presente vai-se tornando uma espécie de espaço provisório, nunca suficientemente bom para ser plenamente habitado.

Mas esta necessidade constante de perfeição não é apenas uma forma de ambição individual. É também uma forma de medo mais discreta, muitas vezes difícil de reconhecer, que nos leva a procurar validação fora de nós para compensar a insegurança que não admitimos sentir por dentro. E, quanto mais dependemos desse olhar externo para confirmar o nosso valor, mais frágil se torna a nossa perceção de quem somos quando esse olhar desaparece.

O mais inquietante é que esta pressão não vem diretamente do exterior. É interiorizada. Somos nós que revemos o que fazemos, que nos comparamos, que duvidamos e que raramente reconhecemos o que é suficiente. O olhar crítico dos outros tornou-se, em muitos casos, menos severo do que o nosso próprio olhar.

Talvez a questão nunca tenha sido se estamos à altura de alguma coisa. Talvez o mais desconfortável seja perceber que fomos nós, silenciosamente, a construir essa ideia de altura e a aceitá-la como medida para a nossa vida. Porque, quando isso acontece, deixa de ser evidente o que significa ser suficiente. E talvez seja precisamente aí que a obsessão pela perfeição se torna mais eficaz, quando já não nos conseguimos lembrar de onde começou a exigência nem em que momento deixámos de nos considerar bastantes. E talvez só voltemos a ser verdadeiramente felizes quando deixarmos de adiar a vida à espera de nos tornarmos alguém que ainda não somos.

No fundo, a obsessão pela perfeição não nos torna melhores. Torna-nos mais vigilantes, mais exigentes e, muitas vezes, mais inseguros. E talvez seja por isso que a autenticidade, hoje, tem um valor tão grande: representa aquilo que escapa a essa lógica de avaliação permanente.

As pessoas que mais nos marcam raramente são as que parecem perfeitas. São aquelas que erram, que hesitam, que recomeçam e que não têm receio de mostrar fragilidade. A própria vida evidencia, quando olhada com alguma distância, que nunca foi feita de consistência absoluta, mas de tentativas, desvios e recomeços.

Talvez seja esse o ponto que vale a pena recuperar: não precisamos de estar à altura de uma expectativa constante para que a vida tenha valor. A pergunta mais honesta pode não ser se estamos a corresponder ao que se espera de nós, mas se estamos, de facto, a viver de forma que nos faça sentido.

No fim, talvez o problema não seja a perfeição em si, mas o facto de termos começado a viver como se ela fosse o preço de entrada para sermos aceites. E a pergunta que fica é esta: em que momento começámos a trocar a vida por uma versão aceitável dela aos olhos dos outros? 

Partilhe este artigo:

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade Autónoma de Lisboa, apaixonada pela escrita e pela comunicação. Colabora com o Observador, onde escreve sobre temas de sociedade, cultura e atualidade, procurando incentivar a reflexão e trazer novas perspetivas. Com vontade de crescer e de deixar a sua marca na área da comunicação, acredita no poder das palavras para informar, aproximar pessoas e inspirar novas formas de pensar.

Contraponha!

Discordou de algo neste artigo ou deseja acrescentar algo a esta opinião? Leia o nosso Estatuto Editorial e envie-nos o seu artigo de opinião.

Mais artigos da mesma autoria:

MAIS AUTORES