Depois de ver o seu parceiro de bebedeiras e ressacas atirar uma grávida pela escada, tudo o que Hank pode dizer é: “Jeff não era lá um ser humano muito bom”. Jeff é daqueles sujeitos que, sob o efeito do álcool, tornam-se extremamente violentos e só com muito esforço conseguem ser contidos. É o tipo de pessoa que facilmente encarna o estatuto de pária social, dado que é presa de um vício e, em função desse vício, tem dificuldades em assimilar e seguir os códigos morais vigentes. Jeff é o tipo de sujeito talhado para instituições corretivas, como a prisão ou o manicómio. Não tem capacidade de dissimular um caráter “virtuoso” para se ajustar à “sociedade do bem”. É sobre esse tipo de pessoas que nos fala Charles Bukowski, o “filósofo” das ruas de Los Angeles.
Contudo, pode-se colocar uma questão em relação ao personagem bêbado de Bukowski e a muitos outros párias sociais que já passaram pelo mundo: a maldade de Jeff decorre exclusivamente da sua vontade? Ou, em outros termos, Jeff é mau porque não tem vontade de ser bom? Essas questões transportam-nos diretamente para alguns dos maiores problemas filosóficos, a saber: o que significa ser um humano e como nos tornamos sujeitos éticos e responsáveis.
Em relação à primeira questão, pode-se dizer que o ser humano é um ser que vive uma existência determinada por três dimensões: a biológica, a psicológica e a social. Por essa razão, ser humano significa ser um tipo especial de ser marcadamente biopsicossocial. Portanto, não há existência humana sem um corpo, sem uma “mente” e sem relações sociais. Aquilo que fomos, somos ou projetamos ser está condicionado a essas três dimensões. E se olhássemos Jeff a partir deste ponto de vista? O que resultaria daí?
Em primeiro lugar, é preciso assumir que Bukowski fala de um homem fisicamente doente, na medida em que concebemos o alcoolismo como uma doença. Em segundo lugar, ainda que sob efeito do álcool, não se pode desconsiderar que, para alguém empurrar uma mulher grávida pelas escadas, há, na origem dessa ação, algum tipo de disfunção psicológica que potencializa essa covarde e brutal agressão. Por fim, Jeff é um sujeito com um emprego precário, que vive num lugar precário, à volta de outras pessoas em situação precária. Jeff não é a única “maçã podre do cesto”; muitas estão nessa situação. Além disso, o cesto é muito eficaz na decomposição de maçãs.
Logo após a agressão à mulher grávida, Bukowski deixa-nos margem para especular sobre o aspeto psicológico de Jeff. Ao ser contido e mantido no chão por meia dúzia de chineses, empregados do restaurante onde estavam e onde ocorreu a agressão, o homem chora compulsivamente, ao mesmo tempo que grita, repetidas vezes e aterrorizado: “MÃE”. Com isso, o monstro transforma-se numa criança indefesa que precisa de ser socorrida. Mas Jeff é um adulto que deverá assumir e ser responsabilizado pelas suas escolhas.
No que diz respeito à segunda questão, ou seja, como nos tornamos sujeitos éticos e responsáveis, tendo em vista o que foi exposto acima, a resposta não nos parece longe. Para que alguém se torne um sujeito eticamente responsável, é necessário que encontre o mínimo de condições favoráveis a uma existência humana digna nas três dimensões mencionadas acima: biológica, psicológica e social. Não espere, a título de exemplo, de alguém que passa fome, que sofre as mais variadas formas de violência e que só convive com a maldade e com as coisas más do mundo, a capacidade de reconhecer e seguir o imperativo categórico kantiano ou o cálculo utilitarista de Bentham. Não se formam pessoas éticas e morais sem lhes oferecer o mínimo de dignidade e respeito.
Para além das questões já colocadas e respondidas, vale a pena pensarmos também numa outra pergunta: serão Jeff e os seus congéneres as principais ameaças à ordem social? Não me parece o caso. E isso deve-se a uma razão muito simples: indivíduos com o perfil e os comportamentos desviantes de Jeff, pelo menos nas sociedades em que predominam as leis e a justiça, são facilmente identificados e, na mesma medida, punidos. Muito embora haja quem defenda o contrário, ainda vivemos fortemente sob a ótica do “vigiar e punir” de Foucault. Os Jeffs, muitas vezes, carregam um histórico de tentativas fracassadas de correções morais que, regra geral, só contribuíram para os desvios comportamentais observados.
Muito mais perigosos à ordem social do que o personagem do conto de Charles Bukowski são aqueles indivíduos capazes de fazer coisas iguais ou piores do que Jeff, mas que, na mesma medida, conseguem dissimular os seus comportamentos desviantes, de modo a serem percecionados como boas pessoas. Jeff não consegue dissimular que é violento e tem de arcar com as consequências disso. Todavia, há quem seja violento, que pratique atos de violência e, ainda assim, consiga dissimular um comportamento não violento e mantenha um discurso contra a violência, sem lidar com nenhuma consequência disso.
Por isso, é necessário muito cuidado com alguns indivíduos que se julgam fonte de imaculada virtude e, com os seus discursos moralizadores, apelam ao cumprimento de regras e valores morais que consideram absolutos e inquestionáveis. A maldade, quando travestida de bondade e de militância pelo bem, costuma ter efeitos muito mais corrosivos à ordem social do que a violência animalesca de Jeff.
Referência bibliográfica
Bukowski, C. (2021). A mulher mais bonita da cidade. Alfaguara.










































































































































