Um Artista é!

"Não se escolhe ser artista. Um artista é e sempre será artista. Nasce pessoa comum e transcende-se mais tarde."

Tempo de leitura: 4 minutos

Um artista é artista porque não existe outra forma de não o ser. Um artista é artista porque expressa os seus sentimentos, usando a sua criatividade para criar. Um pintor, um músico, uma poetisa, uma atriz, um dançarino, uma realizadora, um escritor são artistas porque nasceram artistas e não existe para eles outra forma de viver. Tirar a arte ao artista é tirar o ar que lhes dá vida.

A arte é dom de quem cria,
portanto não é artista
aquele que só copia
as coisas que tem à vista.

Não se escolhe ser artista. Um artista é e sempre será artista. Nasce pessoa comum e transcende-se mais tarde. Eleva-se quando precisa, quando sofre, quando está feliz, quando vive, tropeça e cai, apenas para depois se levantar e entrar no ciclo outra vez.

A arte em nós se revela
sempre de forma diferente:
Cai no papel ou na tela
Conforme o artista sente.

António Aleixo, poeta popular português nascido em 1899, é recordado como um homem simples, semianalfabeto, pobre e com vários empregos. Desde tecelão a polícia, até a servente de pedreiro em França. O poeta cauteleiro, como era conhecido, deixou para trás inúmeras obras poéticas que ainda hoje encontram caminho. Neste Dia do Artista, é nele que me apoio e no seu poema “A Arte” para deixar uma homenagem a todos os artistas que, mais ou menos conhecidos, vivem desta forma involuntária a vida.

Ser artista é ser alguém
Que bonito é ser artista,
ver as coisas mais além
do que alcança a nossa vista!

Ser artista é ser diferente, mas não é um ser mais do que os outros. É um ser demasiado tudo, demasiado tanto que só existe uma forma de o tornar algum. Todos vivem, todos amam e sofrem, mas apenas alguns materializam esse rio de emoções, dando-lhe forma, tornando-o palavra, criando canção.

Só a Arte tem o poder
de a todos nós transmitir
o que todos podem ver,
mas poucos podem sentir.

Cabe ao artista dar ao mundo aquilo que é seu, que não cabe apenas em si, que grita para sair. Não para ser aclamado pelas vozes do mundo, mas para poder dar sentido a si e àqueles que, por si mesmos, não conseguem dar nome ao “demasiado” que por vezes lhes turva a alma. É por isso que um quadro pintado por Picasso faz alguém chorar; é por isso que uma música leva alguém a pensar, a viajar para um determinado sítio, para um determinado momento ou a viajar até alguém; é por isso que um filme faz chorar e um poema faz amar.

Quem seu fado faz ouvir
canta apenas como sente,
porque não pode sentir
os fados de toda a gente.

Na música, tal encanto
eu encontro, que, a meu ver,
só o amor dirá tanto
quanto ela sabe dizer.

O que será mais antigo? A arte ou o amor? Acredito que seja o amor. Como poderia ter nascido a arte sem ter havido amor primeiro? É graças ao amor — e aos vários desamores — que muita da arte que hoje temos nasceu. Ele está em tudo, nasce de nós, percorre-nos, atravessa-nos, torna-nos. A arte ama o amor. Mas o amor nem sempre ama o artista. E é essa relação simbiótica imperfeita que faz com que o artista nasça e que a arte floresça.

Tem a música o poder
de tornar o homem feliz;
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz.

Sou apenas um dos muitos recetáculos da arte. Estamos espalhados pelo mundo. Não somos mais nem menos, somos diferentes. Não vivemos apenas para nós, vivemos para o mundo. Vivemos para lá das nossas vidas, vivemos através dos olhos do passado, presente e futuro.

Somos artistas, não por capricho ou vaidade, teimosia ou rebeldia, mas porque não existe outra forma de não o ser. O meu único conselho: não queiram ser artistas!

“Inês” – Luísa Sobral

Todo o poeta ou escritor
Todo o ator ou escultor
Sonha um dia amar assim
Sonha ter alguém p’ra si

Todo o cantor, compositor
Largava tudo por esse amor
Por um dia amar assim
Por um beijo num banco de jardim

Mas o amor não é p’ra qualquer um
Ser artista não é uma vantagem
Os artistas amam um dia
Vendo amor apenas de passagem


Referências bibliográficas

Aleixo, A. (1945). A Arte. In J. Magalhães (Ed.), Intencionais. Círculo Cultural do Algarve. https://pt.wikisource.org/wiki/Intencionais/L%C3%ADricas
Sobral, L. (2013). Inês [Canção]. In There’s a flower in my bedroom. Universal Music Portugal. https://genius.com/Luisa-sobral-ines-lyrics

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Ricardo Neto, 26 anos. Natural de Amiais de Baixo, Santarém, reside atualmente em Aveiro, sendo o vocalista dos Maria Café, uma banda da região. Lançou também o seu primeiro projeto a solo “Conforto Desconfortável”.

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