Há quem, aos 50 anos, chegue a fazer balanços e a procurar a tranquilidade das rotinas estabelecidas. No meu caso, a maturidade trouxe o equivalente a receber, com meio século de atraso, o manual de instruções da minha própria mente, no rescaldo de uma reconfiguração profunda de toda a minha vida pessoal e relacional.
Aos 47 anos, encerrei um casamento de quase duas décadas e regressei a Portugal, após 10 anos a viver no estrangeiro. Mais tarde, cruzei-me de novo com uma história antiga da juventude, numa relação mais breve, da qual nasceu o meu segundo filho. Olhando para trás, vejo como os desencontros, a exaustão acumulada e as escolhas de vida eram perpassados por um fio condutor invisível que eu ainda não sabia nomear.
Essa travessia recente ficou ainda mais dolorosa com a perda do meu pai. Ele foi a pessoa que mais me amou e, durante décadas, o único que me compreendeu verdadeiramente, mesmo quando o mundo parecia não alcançar a minha forma de ver e sentir a vida. A sua ausência física deixa um vazio imenso, mas o seu amor incondicional permanece como a grande fundação sobre a qual me ergo hoje.
Durante cinco décadas, vivi sob a constante sensação de operar num sistema operativo incompatível com o mundo. Por um lado, uma mente rápida, analítica e capaz de mergulhos profundos; por outro, episódios inexplicáveis de blocking, ansiedade, sobrecarga sensorial e exaustão avassaladora ao final do dia.
Somente este ano vim a descobrir que possuo uma elevada capacidade cognitiva — uma revelação que desmantelou anos de condicionamento. Durante décadas, convivi com o menosprezo alheio e com a falsa crença, inculcada pelos outros, de que a minha inteligência era insuficiente. Na verdade, esse intelecto invulgar funcionou durante anos como uma camuflagem silenciosa, permitindo-me compensar as dificuldades e erguer um masking impecável para sobreviver num mundo desenhado para mentes neurotípicas. Aos olhos dos outros, eu era “complicada” ou “intensa”; por dentro, carregava o peso invisível de tentar provar o meu valor.
A verdadeira viragem e a clareza sobre mim mesma não aconteceram num vácuo intelectual; nasceram no seio da maternidade atípica. Foi ao mergulhar na defesa inegociável dos meus filhos, e ao estudar cada sinal do seu neurodesenvolvimento, ao articular equipas médicas e ao batalhar rigorosamente, escola a escola, pela compreensão, saúde e bem-estar deles, que o espelho me devolveu a minha própria imagem. A experiência de confrontar os sistemas de ensino onde a minha filha estudou, exigindo o respeito e as adaptações a que tinha direito, exigiu de mim uma advocacia incansável. Essa intuição de mãe, transformada em ciência e em luta ativa junto a médicos e instituições escolares, foi o farol que iluminou a minha própria história. Ao acolher, proteger e compreender a mente neurodivergente dos meus filhos, percebi que a arquitetura que decifrava e defendia neles era a mesma que habitava em mim.
O diagnóstico tardio de AuDHD (a sobreposição de Autismo e PHDA – Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) trouxe uma dupla revelação: o luto pelo tempo em que vivi sem me compreender e o alívio profundo de ter, finalmente, respostas. O blocking e a ansiedade do passado deixaram de ser falhas de caráter para se tornarem sinais de sobrecarga de um sistema nervoso atípico.
Foi neste ponto de reconstrução que o Doutoramento em Marketing e Estratégia surgiu não apenas como uma etapa académica, mas também como o meu espelho de renascimento. A minha tese, ancorada no campo do Macromarketing e da Transformação de Sistemas, foca-se em desmantelar o padrão neurotípico nos sistemas de serviços digitais, por meio do poder transformador dos serviços, da inteligência artificial inclusiva e da experiência vivida por mulheres com diagnóstico tardio de neurodivergência. Esta não é uma escolha temática casual; é o ponto de encontro perfeito entre o meu rigor analítico e a minha verdade mais íntima.
Ingressar na investigação estratégica de alto nível aos 50 anos permitiu-me transformar a dor do masking, das perdas e do diagnóstico tardio em ciência aplicada. Sob a lente do Macromarketing, analiso como os sistemas de serviços e de mercado impactam a sociedade. Os sistemas atuais foram desenhados por e para cérebros neurotípicos, criando barreiras invisíveis para quem processa a informação de forma diferente. Na minha tese, questiono esse padrão normativo e investigo como a tecnologia e a inteligência artificial podem (e devem) ser moldadas para transformar os próprios sistemas e acolher a diversidade humana, validando a experiência vivida de tantas mulheres que, como eu, passaram décadas invisíveis.
A hiperfixação e a profundidade analítica, marcas do perfil autista, dão-me a disciplina para dissecar a complexidade da literatura e dos dados. A mente irrequieta e criativa do PHDA dá-me a capacidade de cruzar conceitos de forma não linear e ver padrões onde outros veem ruído. Para tornar esta produção científica viável, desenhei, juntamente com os excelentes profissionais de saúde que me acompanham, as minhas metodologias de trabalho: fracionar a investigação em microtarefas rigorosas, ancorar o pensamento em resumos escritos constantes e gerir estrategicamente a minha energia sensorial.
Hoje, ser uma mulher neurodivergente aos 50 anos, que viveu a emigração, atravessou separações, chora a perda do pai que sempre a acolheu, cria os seus filhos com dedicação clínica e investiga a transformação de sistemas através do Marketing, da IA e da inclusão, não é uma história de fragmentação, mas de integração. O doutoramento deu-me o palco para provar que a mente atípica não é um sistema falho, mas, sim, uma fonte inestimável de inovação e conhecimento. Aos 50 anos, não estou apenas a recomeçar; estou a honrar a memória de quem sempre me amou, a desenhar o futuro com a minha verdadeira voz e a provar aos meus filhos que, mesmo na nossa singularidade, não há limites para o que podemos alcançar.






































































































































