A crise da habitação é um tema tão recorrente que corre o risco de se tornar ruído de fundo. Continua lá, mas os nossos ouvidos deixam de o assimilar. O monstro é tão grande que deixamos de procurar soluções e passamos a tentar aprender a conviver com ele.
Todos sabemos a canção: a crise da habitação é um dos maiores problemas da nossa geração. Comprar casa ou arrendar a preços acessíveis e com um esforço razoável para o orçamento das famílias é uma miragem cada vez mais distante. E, como sabemos, isto condiciona profundamente os jovens que querem construir o seu projeto de vida, afetando, em efeito de bola de neve, todos os outros âmbitos da sua vida, como começar uma família e apoiar a demografia (mas essa é uma discussão para outro dia).
Ao olharmos para uma crise que se configura internacional, é normal sentirmos uma grande impotência. Como podemos nós contribuir para atenuá-la? Aqui, os municípios podem desempenhar um papel fundamental ao agir localmente. Nos últimos anos, houve instrumentos importantes para criar oferta e respostas habitacionais para a classe média. E, em Portugal, são vários os exemplos: em Odivelas, os fundos do PRR estão a ser utilizados para comprar e reabilitar habitações.1 A Amadora criou programas de arrendamento acessível.2 Cascais definiu como objetivo aumentar significativamente o parque habitacional municipal até 2028.3 Em Alenquer foram implementadas políticas de rendas acessíveis dirigidas aos jovens.4 Pode parecer pouco, mas não é. São estratégias diferentes, adaptadas à realidade de cada território, mas todas partem do mesmo princípio: a habitação deve ser uma prioridade política. E isto ultrapassa a região e a cor política.
O que não pode acontecer no combate à crise da habitação é o que acontece no meu município, Aveiro, um exemplo de desresponsabilização política. Durante décadas, não se construiu habitação pública. Perdeu-se a oportunidade de aproveitar os fundos comunitários destinados à habitação, e continuaram a ser aprovados projetos que parecem responder às expectativas dos investidores e não às necessidades das famílias.
Naturalmente, não existe uma solução simples. Nenhuma medida isolada fará cair os preços de um dia para o outro. Mas também é evidente que não fazer nada agrava o problema. Já pudemos constatar que o mercado, de facto, não resolve.
Precisamos de políticas pensadas para o curto, médio e longo prazo. Precisamos de respostas para as famílias em situação de maior vulnerabilidade, mas também para a classe média, que hoje enfrenta enormes dificuldades para comprar ou arrendar casa. Precisamos de aumentar a oferta, aproveitar os financiamentos disponíveis e planear o crescimento das cidades, vilas e outros lugares de forma equilibrada. Aliando habitação à mobilidade, à sustentabilidade, à coesão territorial e social.
Referências
- ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado. Mais Transparência. https://transparencia.gov.pt/pt/fundos-europeus/prr/beneficiarios-projetos/beneficiario/504293125/ ↩︎
- Brissos, S. (2026, July 3). Susana Brissos. Câmara Municipal da Amadora. https://www.cm-amadora.pt/pt/intervencao-social/habitacao-social/8863-arrendamento-acessivel.html ↩︎
- Município está a reabilitar, Construir e Adquirir Habitações. Município está a reabilitar, construir e adquirir habitações | Câmara Municipal de Cascais. https://www.cascais.pt/noticia/municipio-esta-reabilitar-construir-e-adquirir-habitacoes ↩︎
- Arrendamento acessível de Habitação Municipal para Jovens. Site institucional do Município de Alenquer. https://www.alenquer.pt/servicos-municipais/habitacaomunicipal/arrendamento-acessivel ↩︎







































































































































