Imagine que acordava amanhã e descobria que alguém decidia prender os seus movimentos. Não porque tenha cometido um crime, não porque representasse um perigo para os outros, apenas porque existia a possibilidade de cair ou porque alguém considerou que seria mais fácil cuidar de si se permanecesse sentado, deitado ou sedado. Provavelmente sentiria medo, revolta, humilhação, confusão e tentaria perceber o motivo, pediria explicações e exigiria que lhe devolvessem a liberdade. Agora, imagine que essa pessoa tem 90 anos e sofre de demência. Curiosamente, aquilo que nos parece inaceitável para qualquer adulto, continua a acontecer diariamente com milhares de pessoas idosas. Muitas vezes sem má intenção. Muitas vezes acreditando que se está a proteger. Mas será que proteger pode justificar retirar a liberdade de alguém?
As contenções continuam a ser um dos temas mais delicados dos cuidados prestados às pessoas idosas. Delicado porque obriga a confrontar crenças antigas, porque questiona práticas que durante décadas foram consideradas normais e porque nos obriga a perguntar até onde estamos dispostos a ir em nome da segurança.
Quando falamos de contenção, muitas pessoas imaginam imediatamente um cinto preso à cadeira. No entanto, o conceito é muito mais amplo. Considera-se contenção qualquer medida que limite a liberdade de movimentos de uma pessoa e da qual não se consiga libertar autonomamente.
A contenção mecânica é uma das mais conhecidas. Inclui cintos de contenção, grades da cama utilizadas para impedir que a pessoa saia, mesas fixas em cadeiras de rodas, coletes ou qualquer outro dispositivo que impeça movimentos livres.
A contenção física consiste na imobilização da pessoa através da força exercida por um ou mais profissionais ou cuidadores, utilizando as mãos para impedir ou limitar os seus movimentos, como dar a mão à pessoa, podendo guiá-la.
Existe também a contenção química. Neste caso, é realizada por meio de administrados, não porque sejam necessários para tratar uma doença específica, mas porque tornam a pessoa mais calma, mais sonolenta ou menos interventiva. É uma forma silenciosa de limitar a liberdade e, por isso, nem sempre é reconhecida como contenção.
Há ainda a contenção ambiental, que acontece quando portas são trancadas, percursos bloqueados ou o ambiente é organizado de forma a impedir que a pessoa circule livremente. Todas estas medidas têm, normalmente, a mesma justificação: evitar quedas, impedir fugas, controlar comportamentos considerados difíceis ou facilitar a prestação de cuidados. À primeira vista parece fazer sentido. Se uma pessoa tem risco de cair, não será mais seguro impedir que se levante? A lógica parece irrefutável, mas a ciência e a ética mostram uma história diferente.
Durante muitos anos acreditou-se que as contenções poderiam prevenir quedas. Hoje, sabemos que essa ideia não encontra suporte na melhor evidência científica disponível. Na realidade, as contenções podem aumentar o risco de lesões graves. Uma pessoa presa pode tentar libertar-se, pode escorregar da cadeira, pode tentar ultrapassar as grades da cama e cair de uma altura ainda maior. Quando as contenções não são aplicadas corretamente, a pessoa pode mesmo vir a sofrer estrangulamentos, compressões ou fraturas.
Existem casos documentados de mortes diretamente relacionadas com contenções mecânicas, danos não se ficam pelas lesões visíveis. O corpo humano foi feito para se mover. Quando impedimos esse movimento surgem rapidamente consequências. Os músculos enfraquecem, o equilíbrio deteriora-se, a mobilidade diminui, a autonomia desaparece, a pele torna-se mais vulnerável ao aparecimento de úlceras por pressão, a respiração torna-se menos eficaz, o risco de infeções aumenta e, paradoxalmente, quanto mais tempo uma pessoa permanece contida, maior poderá ser o risco de queda quando finalmente se levantar. Existe ainda um impacto que dificilmente conseguimos medir através de exames ou análises que é o impacto emocional.
Imagine viver toda a vida a tomar decisões: trabalhar, criar filhos, construir uma família, escolher onde ir e quando sair, e, de repente, precisar de autorização para se levantar de uma cadeira. A perda da autonomia não é apenas física. É profundamente humana. Muitas pessoas idosas descrevem sentimentos de vergonha, ansiedade, medo, frustração e humilhação. Algumas deixam de tentar comunicar porque sentem que ninguém as ouve. Outras tornam-se mais agitadas precisamente porque estão presas.
É aqui que surge uma das maiores contradições das contenções. Frequentemente são utilizadas para controlar a agitação. Mas a própria contenção pode gerar ainda mais agitação, especialmente nas pessoas que vivem com demência. Quem trabalha nesta área sabe que muitos comportamentos considerados problemáticos são, na verdade, uma forma de comunicação. A pessoa levanta-se repetidamente. Será teimosia? Ou estará à procura da casa de banho? Estará com dor? Terá fome? Estará desorientada? Sentirá necessidade de caminhar porque sempre foi uma pessoa ativa? Quando respondemos apenas ao comportamento sem compreender a sua causa estamos apenas a silenciar um pedido de ajuda.
Importa ainda esclarecer que a contenção não é, por si só, um crime. Em determinadas situações excecionais, quando existe um risco iminente para a própria pessoa ou para terceiros e não existem alternativas menos restritivas, pode ser utilizada, desde que seja devidamente justificada, proporcional, aplicada durante o menor tempo possível e sujeita a reavaliação contínua. Contudo, a utilização de contenções por conveniência, por falta de recursos humanos ou sem indicação clínica pode constituir uma violação dos direitos fundamentais da pessoa e originar responsabilidade disciplinar, civil e, em alguns casos, até criminal.
É precisamente por isso que sou contra a utilização rotineira de contenções. Não porque ignore as dificuldades dos profissionais. Quem trabalha em lares ou hospitais conhece bem a responsabilidade de cuidar de pessoas vulneráveis. Sabe o peso que representa uma queda. Sabe a pressão que existe para evitar acidentes. Sabe que muitas instituições funcionam com equipas reduzidas e recursos limitados. Mas também sei que uma prática não se torna correta apenas porque facilita o trabalho. A dignidade da pessoa não pode depender da falta de recursos. As alternativas existem. Exigem mais reflexão, mais planeamento e mais investimento, mas existem.
O primeiro passo passa por compreender verdadeiramente a pessoa. Nenhum idoso é igual a outro. Conhecer a sua história, os seus hábitos, as suas rotinas e preferências permite antecipar necessidades antes que estas se transformem em comportamentos de risco. É igualmente essencial identificar causas clínicas. Dor mal controlada, infeções, obstipação, efeitos secundários da medicação, alterações da visão ou da audição podem explicar muitos episódios de agitação ou tentativa de se levantar. O ambiente também faz diferença. Espaços bem iluminados, percursos seguros, camas de baixa altura, colchões de proteção colocados junto ao chão, sinalização adequada e objetos familiares ajudam a reduzir o risco sem restringir a liberdade. Promover a mobilidade é outra estratégia fundamental. Quanto mais uma pessoa caminha, mais preserva a sua força muscular e equilíbrio. Quanto mais preserva essas capacidades, menor será o risco de cair no futuro. Em pessoas com demência, atividades significativas como música, contacto com familiares, estimulação cognitiva e comunicação adequada, conseguem muitas vezes resultados que nenhuma contenção alguma vez alcançará. Tudo isto exige tempo, exige formação e exige profissionais suficientes. Mas sobretudo exige uma mudança de mentalidade.
Talvez a pergunta não deva ser “como impedimos esta pessoa de cair?”, mas sim “como podemos ajudá-la a viver em segurança, sem retirar aquilo que ainda lhe pertence?”. Porque existe uma diferença enorme entre proteger alguém e controlar alguém.
A verdade é que nenhum de nós vive sem risco. Todos atravessamos estradas. Todos conduzimos automóveis. Todos subimos escadas. Todos aceitamos diariamente pequenos riscos que fazem parte da liberdade de viver. Por que razão deixamos de aceitar esse princípio quando uma pessoa envelhece? Será que ter 90 anos significa perder automaticamente o direito à autonomia? A idade nunca deveria retirar direitos fundamentais. Uma pessoa idosa continua a ser um adulto. Continua a ter história. Continua a ter vontade própria. Continua a merecer respeito. Talvez seja precisamente isso que as contenções nos obrigam a questionar. Não apenas a forma como cuidamos. Mas a forma como olhamos para a velhice. Será que vemos pessoas? Ou apenas riscos?
Cuidar é muito mais do que impedir acidentes. Cuidar é reconhecer a humanidade do outro mesmo quando essa humanidade se expressa de forma diferente. É aceitar que proteger não significa prender. É compreender que a liberdade tem valor em todas as fases da vida. Talvez um dia todos nós precisemos que alguém cuide de nós. Quando esse momento chegar, espero que quem estiver ao meu lado escolha caminhar comigo em vez de me prender ao medo. Porque envelhecer em segurança é importante, mas envelhecer com dignidade é essencial.














































































































































